Bang!
-Sabe, acho que sou uma pessoa ruim.
-Hein? Acho que você já bebeu demais. Já foram cinco garrafas.
-Não. Eu só bebi dois copos. Parei de beber ainda na primeira garrafa.
-Nem percebi.
-Acontece sempre comigo.
-Olha, pare com isso. Que história é essa de ser ruim?
-Acho que sou.
-Isso é bobagem. Maniqueísmo besta. Não existe isso de bem e mal.
-Existe o que então?
-Existem nuances, muitas cores.
-Um arco-íris?
-Hahahaha!
-Hahahaha!
-E se te disser que algumas vezes me incomodo com o sucesso dos outros?
-Sei lá, pode acontecer. Tem gente que consegue tudo e não merece, então...
-Com o seu sucesso?
-Hã... Cara, eu sei que você é um grande amigo, e tem passado por momentos difíceis. Relaxa.
-Eu não gosto de algumas coisas que penso, mesmo sem querer. Não sei o que é, mas existe alguma coisa que faz de mim uma pessoa ruim.
-Já pensou em sair mais vezes? A gente só tem 25.
-Sinto um desprezo muito grande por pessoas que não fizeram nada.
-Tipo não combinou com o anjo da guarda do outro?
-Desprezo justamente porque não fizeram nada. Porque são nada. Mas ao mesmo tempo me desespero com medo de ser um nada também.
-Nossa. Vamos a um pagode na sexta? Tem muitas meninas bonitas.
-E como sou ruim, acho que vou me tornar um nada. O que me revolta, porque eu não sei o que faz de mim uma pessoa ruim.
-Você está ouvindo o que eu digo?
-Um dia desses vi um desenho animado na TV onde...
-Japonês?
-É.
-Não gosto de ficar assistindo essas bobagens, você devia...
-Escuta.
-Está certo, diga.
-O personagem principal era um menino que sofria muito. Uma espécie de deusa deu a ele a oportunidade de acabar com as pessoas que o faziam sofrer e viver tranqüilamente em um mundo só dele.
-E?
-Ele preferiu deixar as coisas como estavam.
-Legal! Ele descobriu que gostava das pessoas.
-Não. Ele preferiu o sofrimento real a uma paz falsa.
-Ah, ele gostava de sofrer.
-Acha isso?
-É, ele teve a opção de parar de sofrer, não teve?
-Acredita que alguém goste de sofrer?
-Tem pessoas que gostam... Os masoquistas.
-Acredita mesmo?
-Não.
-Ah, vamos para com essa conversa! Não estamos em um desenho japonês. Japonês?
-É.
-Então. Estamos em um bar, vida real.
-Não temos deusas aqui.
-Isso, meu amigo.
-Mas existem outros caminhos.
-Como?
-Voltado um pouco para cima, bem no centro, para não correr o risco de sair pela bochecha. Eu acho...
-Não entendi mais nada.
-Falo do cano.
-Cano? Qual o problema? Uma goteira em cima de você? Bem, espero que a marquise não desabe em nossas cabeças.
-Vou ao banheiro.
-Não demore, esse papo estranho me deu vontade de ir para casa. Vou pedir a conta.
-Tudo certo. Não vou demorar mais que o necessário.
-Endoidou de vez. Hehehehe... Vai fazer xixi de mochila?
-Um beijo.
-Hein?
3 comentários:
Conversas do Cantinho....
essas crises de botequim..
reflexões né
mas eu tenho certeza de que eu sou nada e não fiz nada (pra melhorar)
Bonito, bonito!
Engrossando o coro: VAMOS SAIR UOLY!!!
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