sexta-feira, maio 26, 2006

Mãos sujas de terra

Aquilo definitivamente não acontecia sempre. Assim que chegou no ponto, o ônibus chegou. Subiu e teve ainda que procurar o dinheiro para pagar a passagem. Acomodou-se em um banco junto à janela, e o sono chegou logo. Mas um barulho incomodava: a borracha que sustenta o vidro estava gasta, e este ficava trepidando. A solução foi simples. Uma folha de propaganda recebida na rua, vendendo meninas por dez reais, foi dobrada algumas vezes e preencheu o espaço entre a borracha e o vidro. Tudo pronto. Os braços abraçados à bolsa. Dormiu.
Acordou sobressaltado. Não conhecia o lugar por onde passava: dormiu demais. Levantou-se rapidamente e deu o sinal para descer na próxima parada. Saltou logo do carro. Quando percebeu onde estava, arrependeu-se por ter cedido ao momento de desespero. Estava em uma rua pouco movimentada e completamente desconhecida. Devia ter esperado passar por algum lugar conhecido para descer, ou mesmo, ir até o ponto final e retornar. Não havia mais volta. Já estava ali mesmo. Observando o local percebeu um bar ainda aberto, mesmo sendo tão tarde. Uma solução. Perguntaria ao balconista onde estava e onde poderia pegar um táxi. O bar estava vazio, então foi logo até o balcão.
-Por favor, poderia me dizer...
-Estou aqui – disse a mão que de repente segurava seu braço.
Olhou para o lado. De onde surgiu aquele homem? Desvencilhou-se da mão. Era um pouco mais baixo que ele, e mais velho, e mais gordo. Pela roupa e aparência não devia ser um marginal. Um mal entendido. Tratou logo de resolvê-lo:
-Desculpe senhor, mas eu...
-Tudo certo agora, senhor André. Meu carro está estacionado aqui em frente.
Sabia seu nome? A sensação de mal entendido evoluiu para receio.
-Carro? Como sabem quem sou eu? Não o...
-Me acompanhe senhor, tudo já está arranjado.
Sentia-se curioso agora. De onde surgiu aquele homem? Não lhe parecia estranho, mesmo com toda aquela confusão. Receio, curiosidade. Risco. A curiosidade falou mais alto.
-Certo. Vamos então.
Acompanhou o homem até o carro. O senhor ia abrir a porta de trás, mas ele apressou-se em sentar no banco do carona. O carro partiu. André não observava o caminho, fitava o misterioso senhor o tempo todo. Aparentemente ele não mostrava-se constrangido com aquela observação insistente. Continuava o ritmo freqüente: girar o volante, pisar nos pedais, manipular o câmbio. A mão gorda possuía um anel no dedo médio. Não dava para afirmar se era casado. Uma pista mínima de quem poderia ser. Arriscou:
-É chato trabalhar tão tarde?
-Nunca encarei isso como um trabalho.
-Certo – o que poderia ser então? Não era simplesmente um motorista? Perguntar para onde o levava despertaria suspeitas. Tinha de ser sutil.
-Qual caminho vai pegar?
-Tem preferência por algum? – respostas com perguntas são terríveis.
-Não.
A única solução era esperar. Mesmo porque, assim tão escuro, não percebia por onde passavam. Ficar observando o homem dirigir também não revelava muito.
-Posso chamá-lo pelo nome?
-Sim. Só João, por favor – uma informação.
-Bem João, chegaremos logo, não é?
-Na verdade já chegamos.
João desceu do carro e abriu a porta para André. Desconfiado, desceu e viu que encontravam-se em uma espécie de jardim. Não imaginava onde poderiam estar.
-Vamos logo.
André ficou boquiaberto quando aquele homem começou a despir-se na sua frente. Um pervertido! Havia caído no golpe de um velho maníaco. Reparou logo que João não possuía nenhuma pistola, revólver ou faca. Rapidamente, pensou em correr para o carro e fugir. A visão daquele corpo antigo, com barriga proeminente e pelos brancos causava-lhe repulsa. Virou-se e foi em direção ao carro.
-Comece logo. Dispa-se!
Gelou. Ficou com muito medo de olhar para trás. Em pânico, tirou toda a roupa. Virou-se constrangido com a mão tampando o sexo. Mas o medo passou logo que viu o velho sentado no chão, cavando a terra. Ficou intrigado. Não havia arma alguma.
-Cave também!
Sentou-se e começou a cavar a terra também. Inexplicavelmente não conseguia desobedecer àquela ordem. A voz de João tornou-se tão imperiosa que não podia ser ignorada. André olhava fixamente para a terra, não arriscando olhar para aquele velho estranho. Passou algum tempo revirando a terra. Certa hora ousou levantar a cabeça. Aquele homem gordo havia cavado um buraco enorme naquele pouco tempo. Levantou e deitou-se ali dentro. Começou a cobrir-se de terra. Estava enterrando-se vivo. Quando só o rosto continuava descoberto falou:
-Tem sorte de poder retornar tão jovem.
E afundou a cabeça na terra. André não acreditava no que via. Estava ali, nu, presenciando um suicídio. Ficou ali, estático, observando a terra revolvida onde jazia o velho. Um desespero acometeu de repente o seu peito, e correu para salvar João. Não era perversão, mas desequilíbrio, desgosto talvez. Respeito. Compreensão. Angústia. Cavou desesperado. Cavou. Cavou. Cavou. E nada. O corpo do velho não estava mais ali. Havia desaparecido, como se tivesse tornado parte da terra, misturando-se a ela. Sumiu. André respirou firme e sentou ao lado do buraco que cavou na expectativa de salvar João. Enfiou os dedos na terra e recomeçou a cavar, resignado. Cavar sua própria cova. Não havia opção. Já havia ido longe demais.

2 comentários:

Anônimo disse...

Rafael, rafael... que coisa estranha! heheh

:)

Abraaaaaço!

Anônimo disse...

Mórbido... surreal....