segunda-feira, outubro 26, 2009

Mais um dia acordou

Mais um dia acordou, bebeu a água que havia deixado no criado mudo na última noite para uma sede noturna. Ele nunca acordava a noite mesmo. Servia sempre para o desjejum, que sempre era acompanhado pelo cigarro. Levantou até a cozinha para preparar uma jarra de café enquanto lia uma revista velha. Mas naquele dia havia um som estranho. E não era o aparelho de som que havia esquecido ligado, como acontecia com freqüência. Havia um pássaro na janela. A melodia era agradável. Na verdade não se recordava de jamais ouvir um pássaro cantar daquela forma. Natural. Coisas da vida na cidade grande. Lembrou por um momento dos parentes do interior, mas logo percebeu que o café estava pronto. Sem açúcar. Duas xícaras.
Já pronto para sair, chaves, telefone e carteira no bolso, pegou o pão esquecido na torradeira para comer enquanto descia pelo elevador. O porteiro como de costume não estava ainda na portaria. O preço do condomínio devia ser reduzido. Assim como o salário do senhor preguiçoso. Acenou para o primeiro táxi: vamos pegar a ponte. Corrida normal, pouco trânsito. Na subida da ponte abriu a janela para sentir o vento no rosto e acabou cochilando.
Acordou. Sentiu um cheiro de queimado. Assustado deu um salto para fora da cama e correu para vasculhar toda a casa. Chegando à cozinha, suspiro de alívio. Havia esquecido a cafeteira ligada. Na jarra um torrão preto no fundo. O alívio deu lugar ao aborrecimento. Seria um problema limpar aquilo. Mas certamente a preguiça o obrigaria a comprar uma jarra nova. Não era a primeira vez que isso acontecia. O que causou certo estranhamento. Aquilo não era o suficiente para deixar a casa com tamanho cheiro de queimado. Deu mais uma busca pelos cômodos. Nada. Relaxou. Seguindo a rotina, tomou seu banho e só depois fumou seu primeiro cigarro do dia. Riu pensando que só assim para demorar tanto para começar a fumar. No quarto achou o copo que havia deixado no criado mudo e despejou a água na pia do banheiro.
Já no elevador teve que voltar ao apartamento, pois havia esquecido o telefone. Praguejou. Era mesmo seu passatempo favorito. Na portaria cumprimentou o porteiro, que por algum milagre havia acordado no horário correto e já estava trabalhando. Logo que pôs os pés na rua avistou um táxi. Ensaiou uma pequena corrida acenando para o motorista parar. Mas nesse momento olhou para o chão e viu um pombo morto. Na tentativa de desviar para não começar o dia pisando em um cadáver nojento, acabou torcendo o tornozelo. Caiu. A cabeça, de encontro a um hidrante. Desmaiou com o impacto.
Dor. Isso era tudo o sentia quando acordou. E não conseguia respirar direito. O ar parecia vermelho. Estendeu a mão para o lado procurando o copo de água que sempre deixava no criado mudo, mesmo com a visão turva e sem ter certeza de onde estava. O ato desconexo só fez deixar cair o copo, assim como o frasco de remédio para dormir que havia tomado na noite anterior. Dois, para garantir. Mas não foi só isso. Também sentiu enorme dor nas mãos. Olhando para as mãos cerrando os olhos para conseguir focalizá-las, percebeu que estavam muito feridas. Olhando para o resto do corpo percebeu o mesmo. Os efeitos do remédio pareciam não ter passado. Sentia-se em um estado de torpor desesperador. O céu realmente estava vermelho. Repleto de labaredas. Cigarros acesos na cama. Era bom fumar enquanto o remédio não fazia efeito. Tentou levantar e correr. Gritar. Mas não conseguia. Não sabia se pelas queimaduras ou pelo efeito químico que buscou para dormir. Ficou ali deitado. Tentando mover-se, só conseguindo uns gestos tortos. A dor parecia aumentar. Ficava mais difícil respirar. O ar vermelho parecia tornar-se negro. Os remédios. Tomar mais uns quatro comprimidos seria a solução. Mas não era possível. Havia deixado cair no chão. O ar insalubre fez com que fosse perdendo a consciência.
Ali mesmo ele morreu. Dizem que se sufocou com a fumaça antes de morrer pelas queimaduras, o que deve ter diminuído sua dor. O quarto foi consumido pelo fogo. No enterro, sua mãe chorou agarrada a um pequeno pedaço de tecido. Um pequeno pedaço sobrevivente de um quadro que havia pintado para seu filho e que ornamentava o quarto dele. Um ninho de pássaros para ele lembrar-se de seus parentes do interior.

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