Descendo as escadas o rapaz buscava reconhecer o ambiente. Alguns quadros na parede e lá embaixo um móvel com porta-retratos onde ele aparecia em fotos ao lado de pessoas de quem não se lembrava. Parecia ter nascido a quinze minutos atrás, quando despertou em uma cama estranha, em um quarto estranho. Desde aquele momento não se sentiu assustado, mas curioso. Reagiu como se estivesse vivendo uma aventura quando o desespero tomaria conta de qualquer outra pessoa. Se o que havia esquecido era muito desinteressante ou mesmo ruim, talvez o esquecimento houvesse sido desejado. Talvez por isso uma inconsciente sensação de alívio que superava o medo. Descendo, acabou chegando a uma sala. Ouviu ruídos. Percebendo que vinha de outro cômodo, decidiu dirigir-se até lá. Passando por um corredor entrou pela porta que dava para uma cozinha. Junto ao fogão estava uma mulher um pouco gorda de cabelos curtos que preparava o café da manhã.
-Já acordou, Pedro? O café fica pronto em um minuto.
Então a mulher o conhecia e esclareceu o seu nome a Pedro. Sua mãe, provavelmente? Não lembrava de tê-la visto antes. Ainda assim sentou-se à mesa quase automaticamente e recebeu logo um sanduíche com queijo quente. Estava sem fome. Sentia o estômago dando nós. A mulher logo se sentou ao seu lado, e colocou em sua frente um copo de leite.
-Acordei ontem de noite e vi que adormeceu com a cara no livro.
Livro? Não lembrava de ter acordado com livro nenhum. Mas que livro?
-Aquele em que sempre escreve. Seu diário... Sei lá! Nunca me conta nada mesmo.
Havia pensado alto na pergunta, mas ao menos ganhou uma resposta. Um diário. Não lembrava mesmo dele, mas seria interessante encontrá-lo. Poderia ser esclarecedor. Mas tão rápido veio a idéia de encontrar algo com que pudesse solucionar o mistério, livrou-se dela. Estava tudo tão interessante. Essa sensação de novidade. Cada momento casual parecia tão intrigante. A mulher não falava mais nada. Só comia. O sanduíche de Pedro inteiro ainda. Tentou imaginar um nome para ela. Nesse mesmo instante a dor no estômago aumentou. Levantou-se correndo e precipitou-se em busca de um banheiro. Havia um logo ao lado, no corredor.
-O que houve?
A voz foi abafada pela porta se fechando. Debruçado sobre o vaso sanitário sentia uma vontade dolorosa de vomitar. Mas não conseguia. Levantou-se e foi até a pia tentar lavar o rosto, mas antes que abrisse a torneira, vomitou. A dor passou de pronto. E viu o porquê de tanta dor. Era um pedaço de papel amassado. Seco. Desembrulhou e viu que tinha alguma coisa rabiscada. Nesse momento começou a ficar assustado. E se aquela mulher era sua mãe, poderia lhe ajudar. Voltou à cozinha. Olhou para ela, que retornava o olhar, preocupada. Resolveu dar o papel em sua mão. Ela olhou sem entender muito.
-“Vera, sua mãe”. O que é isso Pedro? Alguma piada maluca? Fiquei assustada sabia? Suba já e termine de se arrumar para ir para a aula!
Pedro pegou o papel de volta e agora podia ler claramente o que estava escrito. Não sabia reconhecer se a caligrafia era sua, mas pela reação de Vera acreditava que sim. Subiu para o quarto onde acordou, vestiu outra roupa e saiu daquela casa. Ainda na porta lembrou que deveria assistir aula. Aula de que? A dor voltou. Escorou-se na parede e foi abaixando até quase se sentar no chão. Doía muito. Mais uma vez vomitou. Outra folha de papel. Agora já sabia ler. Era um endereço, o nome de uma universidade, um número de uma sala e um horário. Já sabia onde seria a aula. Ficou receoso de perguntar-se mais qualquer coisa. Caminhou um pouco até ver um homem parado.
-Com licença, o senhor saberia me explicar como chego a esse endereço?
-Ora, Pedro, que história é essa? Não sabe mais como chegar na faculdade? E que papo é esse de senhor? Não me reconhece mais garoto?
Não. Não reconhecia. Quem era ele? Fez mais uma pergunta a si. A dor retornou no mesmo momento. Pedro saiu correndo de perto do homem que o observou espantado. Correu até a esquina e parou para vomitar de novo. “Carlos, amigo do seu pai e vizinho”. Dessa vez foi o que estava escrito. A grande aventura começava a revelar-se muito dolorida e inconveniente. A cada coisa que precisasse lembrar seria daquele jeito? Como ele poderia impedir-se de pensar em perguntas quando não sabia de nada? Pedro recomeçou a correr ensandecido já muito aborrecido com tudo o que estava acontecendo. Cansado, acabou parando em uma praça e sentando-se no banco. Decidiu fazer uma pergunta de novo. O que está acontecendo? Nada. O que diabos está acontecendo? Sem dor. Merda, o que está acontecendo? Frustração.
Então possuído por uma raiva louca Pedro pôs um dedo na garganta para induzir o vômito. Não conseguiu. Tentou mais um dedo, e mais um, até quase enfiar toda sua mão na garganta. Começou a sentir que ia regurgitar. Mas não acontecia de fato. E continuou. Sentia dor. Com a ponta dos dedos sentiu alguma coisa. E agarrou para fora sem se importar se era algum órgão. Só queria outro papel. E era. Mais um. Seco. Precisou de alguns momentos para se recompor antes de desdobrá-lo para ler. Ajeitou o cabelo e disfarçou para as pessoas que o olhavam, passando na rua.
Abriu o papel.
“Apaguei apenas as memórias que não valiam à pena. Os fracassos”.
-Meu Deus! Mas então se foram todas?
Mais uma vez a pergunta de Pedro ficou sem resposta.
Um comentário:
cheguei por aqui navegando, texto genial, parabéns!
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