Ela era uma pessoa normal. Uma pessoa normal que pagava a TV a cabo e não tinha plano de saúde, como todas as outras. Tinha uma casa e um emprego que lhe bastava para pagar as contas. Tinha apenas um problema. Mas não. Seu problema não era dificuldades na vida sentimental, apesar de todas as histórias de pessoas bonitas e bem sucedidas tratarem de seus problemas sentimentais. Na verdade poucas vezes ela era vista sozinha. Namorados não eram seu problema. E não digo somente em quantidade. Todos eram muito bons para ela e amavam-na bastante. Bem, falamos de um problema, certo? Exagero certamente. Não era exatamente um problema. Uma particularidade seria mais bem dito.
Quando eu a conheci, e eu não sei quanto tempo fazia que tudo tinha começado. Era uma mulher bonita, e não deixou de ser nem no final, que usava roupas de grifes famosas, bolsas combinando com os sapatos impecavelmente, cabelos rigorosamente alinhados pela escova feita diariamente, não ia sequer à esquina comprar pão a pé, mas sempre de carro. Para definir em uma palavra, era o que se chama comumente por “patricinha”. Só percebi a mudança quando terminou o seu relacionamento. Não passou muito tempo e começou a se envolver com um homem muito culto. Logo começou a ler Nietszche, Foucault e outros autores que as pessoas adoram citar para mostrarem-se inteligentes. Ela quer impressioná-lo – pensei. Já é tempo de dizer que ela se chamava Amanda, e ele a chamava de Danda, apelido que eu achava terrível, mas não era da minha conta. O relacionamento não durou muito.
Logo em seguida veio o outro. Com ele vi as coisas modificarem-se mais. Começou a curtir músicas novas, como as que ele ouvia. Ela passou a freqüentar lugares diferentes. Seu cabelo mudou de cor, começou a usar munhequeiras no lugar do relógio caro, tênis All Star no lugar do scarpin, camisetas estilosas e calças mais descontraídas. Transformou-se no que podemos chamar de “alternativa”. O rapaz aparentemente compartilhava da minha falta de apreço pelo apelido Danda, e passou a chamá-la de Dinha. O novo apelido não era tão melhor assim, como em geral não são nenhum desses diminutivos de nome, mas mais uma vez não era da minha conta. Esse relacionamento durou bastante tempo. Percebi que os livros do Foucault e do Nietzsche nunca mais foram lidos. Inclusive ouvi dela certa vez que eram muito chatos, mas tempos atrás lhe eram muito interessantes. Achei engraçado como ela se adaptava tanto a cada um dos seus relacionamentos. Engraçado porque seria burrice criticar um ser humano por ser adaptável, afinal é o que nos faz o que somos e não vou entrar aqui no mérito de se o que somos é bom ou ruim.
O namorado seguinte resultou em uma mudança mais radical que a anterior. Transformou-se praticamente em uma hippie: fumava maconha, tornou-se vegetariana, amava a natureza. Saiu de sua casa no Catete e foi morar em uma república instalada em um casarão em Santa Tereza. Dinha tornou-se passado, era chamada de Bina agora. Esse foi o momento quando percebi que mais do que roupas e gostos, ela modificava-se ainda mais profundamente. Comecei a perceber que sua própria personalidade mudava também. Mas nesse momento ainda estava cercada por pessoas que eu considerava legais, portanto essas mudanças não me atingiam muito. Na verdade isso aconteceu com o homem que veio depois, um empresário de muitos recursos. É claro que ela enfim deixou de freqüentar os lugares que eu freqüentava, então a partir daí comecei a vê-la muito menos. E quando tornei a vê-la foi um certo choque, o nariz arredondado havia se tornado pontudo e empinado. Seu nariz nunca havia sido grande, mas agora era tão fino que realmente chamava muita atenção. E o mais importante, quando tentei dar um abraço para matar a saudade fui recebido com certo desdém. Fiquei chateado, mas compreendo que quando as pessoas se afastam muito fisicamente, acabam tornando-se estranhas à vida afetiva dos outros, mesmo tendo tido uma relação anterior da mais intensa amizade. Ah, e agora chamavam-na por Babi. Foi aí que tive pela primeira vez a dificuldade de lembrar do seu nome verdadeiro. E a partir daí ela começou a ter dificuldades para lembrar de qualquer um dos nomes que eu pudesse ter. Conheci ainda a Fifi, a Fefa, a Lê, a Leca, a Teca. A Tiça curiosamente lembrou-se mim, apesar de eu não conseguir reconhecê-la. Isso porque depois de todo esse tempo além do nariz, a boca, a testa, os seios, o maxilar e mais alguma coisa que não consegui detectar já haviam sido reparados pelo bisturi. Não preciso dizer sobre os cabelos, porque eles já mudavam desde tempos que nem me recordo mais. Certo dia desses um amigo em comum contou-me que ela declarou-se lésbica, e namorou duas meninas. Não quis saber por qual nome ela atendia agora. Isso realmente me confundia. Na verdade algumas vezes eu pensei tê-la visto na rua, mas não tive coragem de tentar conversar com ela. Não tinha mesmo muita certeza de que era ela.
Semana passada, quando já fazia então muitos anos que não a via, estava vendo algumas fotos antigas. Ela estava presente nas minhas fotos até ser Bina, ou Babi, algo parecido. Era como se eu estivesse com uma pessoa diferente em cada uma delas. Quanto a mim, se passasse as fotos rapidamente, ia formar-se uma animação grotesca, cabelos sumindo e rugas brotando exatamente onde se podia esperar que aparecessem. Toda minha vida pareceu-me uma novela muito previsível, como todas são. Mas a novela da vida da Dinha, ou Fefa, parecia um filme de vanguarda, cheio de cortes inesperados. Mas eu não a invejo, pois sei que um dia ela se cansará das mudanças, se é que já não se cansou, e buscará um lugar onde se agarrar para permanecer ali até o fim. Isso acontece mais cedo ou mais tarde, mas com uma diferença fundamental: ela talvez não se lembre mais o que é quando resolver fazer a roda parar de girar. Eu talvez possa nunca ter descoberto o que sou ou poderia ser. Qual opção é mais vantajosa? Certamente não sei. Afinal, alguém pode voltar para ver a diferença?
2 comentários:
a mesma lua que seu bisavô viu é a que você vê hoje..
não sei.. ainda acho que quem muito muda, ainda assim pra agradar a alguém er.. é muito tosco =p
a sensação de 'oh, eu tenho peculiaridades' nos torna personagens de mangá!
Puxa Rafa, gostei do conto, ainda bem que o meu não foi tão cruel(?)...
Será que a nossa amiga vai gostar? Será que ela vai se reconhecer ou simplesmente achar que se trata de uma pessoa completamente sem "senso de noção"?
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